"O CLIMA DOS MEUS NETOS

É urgente que os nossos netos, donos do futuro mais longínquo, possam usufruir esta nossa casa com o prazer de saborear as estrelas e os mares, saudáveis na imortalidade perfeita dos sonhos.”

“Sei que nada sei de climatologia. Também desconheço as dinâmicas do clima, as rupturas e continuidades, desde a Idade do Gelo até aos tempos de hoje. Sou um verdadeiro ignorante no que respeita à evolução do buraco do ozono e sobre o aquecimento global apenas conheço aquilo que vem nas notícias dirigidas ao cidadão médio.

Embora seja reconhecidamente analfabeto nas matérias que referi, escrevo com autoridade moral de quem goza a vida na Terra há mais de seis décadas. Quando era puto, o planeta era um mapa na parede da minha escola e um globo gordo que girava conforme o empurrávamos com o dedo. A Terra era, então, do tamanho da minha terra. Havia o céu, com as suas estrelas e planetas. Gostava do verão porque nadávamos no Ardila. Gostava do inverno porque o frio acendia as lareiras e a chuva era doce melodia a bater no telhado quando, deitado, esperava o sono. Gostava da primavera porque faço anos. E gostava do outono porque não fazia anos.

Quando cresci, percebi que a minha casa era bem maior do que aquele pontinho minúsculo no globo da minha escola. Descobri, então, naquela idade em que despertamos para o amor, que pertencia a uma família bem maior do aquela que eu conhecia. Parentes sem fim, de todas as raças, de todos os credos, de todos os cantos do mundo, que partilhavam os mesmos gostos pelo céu e pela Terra, que nadavam noutros rios, que escutavam a chuva noutros continentes, que amavam e choravam, que sofriam e sorriam, tal como eu e os putos da minha escola. Éramos tão iguais nas nossas diferenças que até havia flores e pardais em cada canto de viver. E ameaças que assustam toda a gente.

É assim que escrevo. Sabendo que esta imensa família, que todos partilhamos nesta casa comum que nos alimenta, que nos deixa amar e que que nos abre as portas para sonharmos para além das nuvens, pode estar a caminhar para um precipício negro, cheirando a morte. Porque poluímos os rios onde nadávamos, porque destruímos recursos como água, porque nos descuidamos das estrelas e dos ursos polares. Porque deixamos que a primavera, em vez de florir, receba desertos, e que por cada metro quadrado de terra morta aumente um pedaço da fome que atinge milhões.

Sei que os cientistas investigam, discutem e propõem soluções e alertam e denunciam as agressões que vitimam ecossistemas inteiros. Mas eu não sei nada sobre isso.

Agora que a minha vida entardece e já pressinto o pôr do Sol, sei que vivi tão intensamente nesta nossa casa e jamais esquecerei florestas, prados, rios e mares, assinalados com risquinhos no globo da minha escola. Que tive o privilégio de ver cavalos a galope e andorinhas a fazerem o ninho nos beirais da minha rua. Que descobri que a minha família é tudo isto junto.  Agora que entardeço, dizia eu, partilho convosco o sonho de muito gente: é urgente que os nossos netos, os donos do futuro longínquo, possam usufruir esta nossa casa com o prazer de saborear as estrelas e os mares, saudáveis na imortalidade perfeita dos sonhos.”

 

Por Francisco Moita Flores
In Revista Montepio
Primavera ’18 // #26

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